literacia digital nas escolas

Pelos caminhos da literacia digital nas escolas

Passaram quase quatro semanas sobre o encerramento das escolas, devido à pandemia da Covid-19. O estado de emergência está em vigor até, pelo menos, 17 de abril, e são vez menos os que acreditam que ainda voltaremos às salas de aula durante este ano letivo.

Professores e alunos terão que se adaptar a uma nova modalidade de ensino que, inicialmente, se pensou ter um prazo de validade de 15 dias mas, afinal, está para durar.

Políticas que não promovem a literacia digital nas escolas

A necessidade urgente de implementar o Ensino a Distancia (EaD) pôs a descoberto os problemas de literacia digital nas escolas – professores e alunos. Quem está no terreno, há muito que sabe da existência destas lacunas, mas a tutela continua a negá-las, dizendo que está a correr tudo bem. A verdade é que nunca foi implementada nenhuma política que apoiasse as escolas na transição para o digital e isso está a refletir-se nos dias que correm.

A distribuição de computadores Magalhães e, mais recentemente, a criação de Salas de Aula do Futuro, um pouco por todo o país, não resolveram o problema. A razão? Foram pensadas partindo do pressuposto que dar, a professores e alunos, acesso a equipamentos tecnológicos, resultaria automaticamente no desenvolvimento de aptidões de literacia digital.

Como é agora evidente, tal não corresponde à verdade. Teria sido necessário investir também na formação dos professores e no seu acompanhamento no terreno, por parte dos mais experientes, de forma a debelar os seus receios iniciais.

Internet das escolas muito lenta

Alguns professores procuraram colmatar essas lacunas frequentando, por sua iniciativa, ações que os capacitassem para trabalhar com a tecnologia, que estava cada vez mais presente nas escolas, sobretudo no bolso dos alunos. De facto, a proliferação dos smartphones abria outra possibilidade de transição para o digital, que esses professores não queriam deixar escapar.

Contudo, regressados à sala de aula, debateram-se, uma e outra vez, com problemas no acesso à Internet, arruinando-lhes vezes sem conta os plano de aula. A incapacidade ou falta de vontade da tutela para resolver este problema, fazia assim cair por terra a esperança de que a política BYOD (Bring Your Own Device) impulsionasse a tão necessária revolução digital nas escolas.

Ser nativo digital não significa ter literacia digital

Quanto aos alunos, o ICILS (International Computer and Information Literacy Study), promovido pela IEA (International Association for the Evaluation of Educational Achievement) e divulgado em novembro de 2019, concluiu que, os alunos portugueses, na altura a frequentar o 8.º ano, têm um nível de literacia digital acima da média dos onze países europeus que participaram no estudo.

No entanto, uma análise mais detalhada, ao referido estudo, permite perceber que, apenas, 1% desses alunos, considera ser capaz de selecionar a informação mais relevante e avaliar a utilidade e fiabilidade da mesma. Além disso, revelam, também, dificuldades em trabalhar, de forma autónoma, com o computador.

Esta realidade é sentida pelos professores e, para além do fracasso das políticas referidas anteriormente, não será alheia ao facto da matriz curricular, no que à disciplina de TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) diz respeito, ter sofrido inúmeras alterações ao longo dos últimos anos. No ano letivo 2018/2019, esta disciplina tornou-se, finalmente, obrigatória a partir do 5.º ano, mas o resultado desta medida vai demorar algum tempo até dar os seus frutos.

Estratégia para o ensino a distância

Assim, temos alunos que dominam melhor o smartphone e o tablet do que o computador e, pelas razões referidas acima, professores que não estão preparados para desenvolver atividades de aprendizagem adequadas para serem realizadas neste tipo de dispositivos.

Numa altura em que nos preparamos para mais umas semanas de ensino a distância, esta valência seria muito útil porque minimiza a hipótese do aluno não poder executar as tarefas que lhe são enviados por falta de equipamento. Nem todos os alunos têm computador em casa mas, quase todos, possuem um smartphone.

Portanto, é imperativo que os professores tentem mais uma vez. Como refere Marco Bento,  “é chegado o momento em que cada professor, com as suas condições, melhores, piores ou inexistentes, se vão ter de reinventar e desenhar, com a criatividade que caracteriza o professor português, novas formas de ensinar e aprender. Estão todos os professores  “covidados” a reinventar-se! “

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